Somos constantemente confrontados com fotografias ou vídeos de crianças sempre sorridentes, rodeadas de brinquedos sustentáveis, a comer lanches saudáveis e equilibrados, participando em atividades pedagógicas e interessantes. Até a desarrumação aparenta ser “organizada” e tudo parece ser leve e fluir com naturalidade mas…será essa a realidade?
A forma como olhamos para a infância, com grande influência das redes sociais, tem vindo a criar um novo ideal não só da criança mas, sobretudo, da parentalidade. Um ideal exigente, muitas vezes irrealista, que dita que os bons pais deverão ser sempre pacientes, criativos, disponíveis e emocionalmente regulados. Por sua vez, os filhos de bons pais devem viver em constante harmonia, tranquilidade e nunca fazem “birras”. Se algum destes critérios não for preenchido é como se se tratasse de um atestado de incompetência parental.
Como psicóloga e mãe de uma criança de 4 anos observo e sinto o impacto deste fenómeno na autoestima dos pais. Mães e pais que se sentem a falhar por não conseguirem oferecer aos filhos o mesmo tipo de experiências “perfeitas” que veem no digital. Mães e pais que se culpam por não terem sempre tempo, paciência, energia ou recursos para manter aquele padrão que consideram ser o exemplar. Um estudo publicado na Journal of Child and Family Studies (Schoppe-Sullivan et al., 2017) demonstrou que a exposição frequente a conteúdos idealizados de parentalidade nas redes sociais pode fazer com que os pais se sintam insuficientes, tendo por isso maior probabilidade de desenvolverem sintomas de stress e ansiedade.
Exigir uma parentalidade sem falhas é esquecer que os nossos filhos também precisam de aprender a lidar com a imperfeição. É criar a ilusão de que tudo corre sempre como o planeado, sem margem para erro ou dúvidas e retirar-lhes a capacidade de lidar com a frustração.
A idealização da infância e a premissa de que tem de encaixar em determinados padrões é desvalorizar a complexidade do desenvolvimento humano, correndo o risco de o tornar “artificial”. Estudos revelam que crianças que são frequentemente expostas a contextos em que a aparência e a validação externa são valorizados, podem desenvolver maior vulnerabilidade à pressão social e têm mais probabilidade de apresentar dificuldades de autorregulação emocional. Além disso o excesso de exposição e a orientação/vigilância constante do comportamento infantil podem reduzir o espaço necessário para a brincadeira espontânea, o tédio criativo e o erro natural, elementos essenciais para o desenvolvimento saudável (Steinberg, 2018).
É importante relembrar que a infância real é feita de desarrumação, de caos, de birras, de dias bons e dias difíceis. É feita de pais que erram, que se cansam, que às vezes gritam mas que aprendem a pedir desculpa. É feita de tentativas constantes (nem sempre bem sucedidas) de fazer mais e melhor. É feita essencialmente de amor, de presença, de afeto.
É urgente normalizar as dificuldades, falar mais sobre a realidade e menos sobre a aparência. Porque a infância saudável não precisa de fotografias ou vídeos bonitos, nem tão pouco de pais perfeitos, mas sim de vínculo, segurança e liberdade para ser criança.
